quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

SORRISO AZUL

Adeus, céu azul!
Você me fez feliz por um tempo.
Ganhei uma gargalhada diferente e todo mundo notou.
Te vejo em qualquer esquina por aí,
ou quem sabe em meus delírios
te abraço apertado
e sinto seu cheiro bom.
Até mais, céu azul!
Sei que estará bem ali,
logo acima de mim.
Como pássaro frequentemente ouvido,
dificilmente visto.
Bye bye, blue sky!
Foi você quem me deu esse sorriso azulado.
Eu suspiro junto com as cordas da orquestra
porque me lembro da limpeza da sua cor
e da sua imensidão.
E restam poucas nuvens para eu me lembrar de ti agora.

dezembro/2012


MEU POEMA

Esculpida no silêncio
e na poesia,
sentada
e sábia
fita o horizonte da vida.

No céu
o sol murmura
as sílabas do ocaso.

Ó beleza jovial e súbita,
sobre o teu rosto
o instante
se debruça iluminado!

Recebi essa grata surpresa de meu amigo e poeta Leonardo Só, dezembro/2012

MICROCONTO DO COMPUTADOR SOLITÁRIO

Era de última geração, mas suas portas usb estavam todas desocupadas. Descobriu que enfrentava o problema de incompatibilidade de gênios com  pen drives que encontrou desde que foi ligado.

dezembro/2012

MICROCONTO DA MULHER QUE SOFRIA MAS NÃO QUERIA AJUDA POIS PRECISAVA TER AQUELA DOLOROSA EXPERIÊNCIA

Então ela lhe disse:
- Não adianta braço estendido porque meu problema não é apoio. Não ouse diminuir a minha dor.

dezembro/2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

MICROCONTO DA MULHER QUE ERA INCAPAZ DE ALIVIAR SEU PRÓPRIO SOFRIMENTO MESMO COM TODAS AS TENTATIVAS

Ela tinha uma vida breve e uma dor que não respeitava a cancela.

novembro/2012

OCEANO (MEU NOME AQUI)


Há uma brutalidade que me paralisa
mas o mundo continua girando.
Ainda que eu grite, exagere nos palavrões,
nada é capaz aliviar meu coração.
A não ser você.
Não adianta chorar: já tentei.
O máximo que acontece é sentir estrelas escorrendo do meu silêncio.
Sou um mar salgado e aflito.
Olhar por cima dos óculos embaçados de ser triste,
sem conseguir tirar o pó dos dias,
isso já te aconteceu?
Só desejo mesmo viver a inteireza de tudo.
Não sei fazer nada pela metade;
nem andar pelo meio fio ou tocar-te apenas na orla da roupa.
Conheço muitas pessoas que conseguem e são estranhamente felizes.
Chego a ter inveja de gente assim.
Azar o meu.

novembro/2012

sábado, 24 de novembro de 2012

MINICONTO DO ADEUS

"Estou fora dos padrões e por isso você me confundiu. Acredito ser esta, a única explicação para esse desenrolar, uma vez que a sinceridade permeava meu afeto. Pensa, por um momento, você que me conhece bem: haveria maior castigo do que nunca, nunca mais me ver sorrir? Pois saiba que não acenarei pra ti nem enviarei cartão de boas festas. Nunca mais mirarás meu olhar em tua vida inteira.
Tornei-me estranha para o teu mundo."

Ela deixou o bilhete embaixo da porta do sujeito logo após descobrir a mentira que arrastou para longe daquelas vidas encontradas, a lealdade e a confiança. E ele realmente nunca mais a observou, nem soube se foi uma linda mãe, ou se continuou estudando, se ainda dançava, se permanecia passando as noites lendo poesia, se comia chocolate. Nem ouviu a voz dela na maturidade. Nem viu seu rosto. Toda a água que ela lhe deu, ele usou a irrigar outros jardins, e toda história é remorso.

novembro/2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

POETA CLANDESTINO

*Para Leonardo Só

Se uma ave fende o céu num rompante,
esse pássaro vadio,
já isso seria motivo para poema.
A natureza, corrosiva e feliz,
é matéria prima.
Ele agrega o amor pungido e a solidão,
irmãos que são,
num investimento de formas improváveis,
em manhãs que nunca sorriram
ou em noites que sonham em se casar.
Deus lhe deu o dom porque mereceu.
A severidade da realidade
ou a magia do sonho:
impossível identificar a diferença
tamanha brisa que flui desses seus segredos não mais secretos.
Autodenomina-se clandestino.
Podes ser oculto em tudo,
menos nessa extrema poesia.

novembro/2012

MICROCONTO DO RATO QUE FINGIA SER UM HOMEM

Quanto mais ele se disfarçava,
mais parecia a si próprio.

novembro/2012

DECEPÇÃO

Ingênua eu sou ao pensar
que o ser humano nasceu com um pacote de bondade,
e que por livre e espontânea vontade é capaz de evoluir.
Pela própria natureza, ninguém melhora.

Infeliz daquele que põe confiança no outro,
considerando o retorno dessa lealdade como o ouro,
uma fogueira, um portão.
A decepção é um incêndio que consome a terra,
desaloja os animais, mata as plantas,
deposita negro veludo por toda parte.

Cruel.
Apostar na honestidade de uma pessoa
é uma forma de chantagem, no mínimo,
repugnante.

Clamo pelo fim do inimigo,
pelo tempo da colheita, pela chuva serôdia.
Minha ingenuidade é tão burra quanto minha falta de fé,
por isso não consigo respirar o momento da vida presente.
Meu coração se esconde à moda dos bichos caçados.

novembro/2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O TEMPO PAROU POR UM INSTANTE

Sentei-me naquela cadeira giratória e rodei.
Rodei, rodei, rodei.
Senti meus cabelos no ar.
Meus pé saíram do chão.
Vento, vento, vento. Porta, janela, porta.
Continuei rodopiando, ensandecida em meus pensamentos.
Parecia pileque.
Por um momento, esqueci de tudo:
de você, do carro estacionado em lugar proibido.
O mundo em redemoinho e eu, em total felicidade.
Vento, vento, vento.
Meus olhos sem lágrimas de tanta ventania.
Eu flutuava.
Costumava fazer isso quando criança: rodear em torno de mim mesma até cair de cansaço ou tontura.
Vento, vento, vento.
Não sou mais menina,
mas queria perpetuar esse momento de total liberdade.

novembro/2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A CURIOSIDADE MATOU MINHA FELICIDADE

Olhei pelo buraco da fechadura de teu coração e levei um susto.
Não gostei do que ví.
Procurei, procurei, e não me encontrei.
Era um coração repleto de coisas, cheio de pessoas, sonhos, viagens.
Mas não havia nenhuma cadeira reservada com meu nome.
Todas as vagas de estacionamento estavam ocupadas.
Os carrinhos de supermercado lotados de bugigangas.
Os chinelos tinham pés dentro.
Afastei-me dessa porta por um momento.
Senti-me despreparada para verdade. Descobri, que, no fundo, sempre estamos.
Perguntei a mim mesma: por que esse espírito de repórter?
Esqueci-me de que, às vezes, a ignorância é uma bênção
e a ficção me desperta do sonho da minha vida.
Minha vó já havia me avisado um dia:
a curiosidade nem sempre nos faz feliz.

novembro/2012

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ESTADO DE EMERGÊNCIA


Nomeio, então, medidas urgentes para preservar minha felicidade interior.
Declaro que tudo será sem reservas.
Delimito o que sinto somente a meu favor.

Enquanto a esperança se foi para a maioria,
alegro-me porque simplesmente creio.
Desprendo-me do que considero ser real.
Sou incapaz de fazer escolhas sensatas.
E por isso dependo cada dia mais de Ti.

Amo-te porque Tu não me aborreces,
nem me engrandeces,
disso não me escondo.
Recebo tuas palavras e elas são macias como manteiga,
brandas como o azeite.

Sinto dores nos ossos.
Meu corpo a envelhecer.
Sou um espírito jovem preso nesta carne.

novembro/2012

DEIXA-ME VIVER NO CAOS

Minha aflição é maior que a sua
e sempre será.
O mundo é dos desesperados.
E salve-se quem puder.

novembro/2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

SONHEI COM A TUA MÃO

Sonhei que a tua mão me abraçava.
Ela era morna e parecia algodão, tinha cheiro de brigadeiro.
Tua mão me levou para passear.
Refrescou meu rosto com a água da cachoeira quando bateu o calor.
Me carregou no primeiro suspiro de cansaço que esbocei.
Sonhei que a  tua mão colocava um anel em meu dedo, e eu estava no banho.
Fiz um cabelo de espuma e um bigode de sabonete.
Tua mão escreveu um poema pra mim no espelho embaçado. Eu achei lindo.
Sonhei que a tua mão me acenava.
Ela balançou um lenço, jogou uma flor, estalou um beijo.
Tua mão virava as páginas do meu livro preferido para que eu continuasse a história.
Tua mão fazia massagem no meu rosto.
Ela era macia e demonstrava o quanto você deseja me pertencer.
Sonhei que a tua mão repousava sobre o meu travesseiro.
E eu adormeci sobre ela.

novembro/2012 


LEMINSKI ME ACONSELHA SOBRE AS DIFICULDADES

Oi Paulinho, há quanto tempo... Ando meio desligada... Sinto-me até absorta de tão incapaz de resolver meus próprios dramas. Inútil eu sou ao escolher sempre o pior, a ter o dedo "podre" para o salamê minguê, arriscar no sabor do sorvete mesmo sabendo que tenho mão pantanosa. Queria ser superpoderosa e ter as soluções para todas as coisas, sem pestanejar. Tenho inveja de gente assim. Tu és assim, Paulo? Conseguirei um dia dar respostas negativas sabendo que é o correto, mesmo minha carne desejando dizer sim? Cansarei-me de perguntas e me entregarei de uma vez por todas à realidade? Terei coragem de me concentrar nos problemas e dizer "não" ao que me causa dano mesmo que aparentemente pareça imprescindível?


Querida, a vida é nada sem desentendimentos, problemas e dificuldades.

Problemas não se resolvem,
problemas têm família grande.
E aos domingos, saem todos a passear.
O problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

UM AMOR INÚTIL

Infeliz daqueles que buscam um amor profíquo. Amar não foi feito para ter utilidade. Não se arremeda, impossível trazer apenas satisfação e alegria, porque carrega consigo o estrago. Mas há o lado bom, e é sobre isso que escrevo agora.

Busco o amor, não somente uma pessoa. O amor estará em alguém; isso é fato.
Não tem que haver aproveitamento ou eficiência; isso é a própria escravidão.
Procuro a inutilidade do Amor.

Gosto da ociosidade do amor descoberto: do não falar no silêncio; da ausência de pedidos quando a luz se apaga; do entrelaçamento das mãos quando não há juras nem areia escorrendo por entre os dedos;  de serenar mesmo quando ainda está garoando.

Me apetece estar ao teu lado com a tv ligada, sem som. Apenas aquela luz azul inundando a nossa noite, parecendo dia de sol.
Quero amar sem a necessidade de amar.
Aprecio a futilidade do amor.
Os melhores momentos serão os supérfluos. Me lembrarei de todos eles, com detalhes.

Carrego esse amor na cadeira de balanço, no embalo das gargalhadas de um cotidiano qualquer.
Suspiro o desnecessário como se fosse urgente.
Ambiciono passar o dedo no creme do sonho desse bem querer.

Quero um amor descalço.
Desejo um amor inútil.
O tempo arrastando e a gente criando raiz no outro.

novembro/2012

LISTA DE INCONVENIÊNCIAS

- Acordar alguém no meio do sonho.
- Praticar leitura labial com a conversa alheia.
- Encher de detalhes uma história simples.
- Raspar a calda do pudim sem pensar no outro.
- Impedir o cochilo de qualquer pessoa que seja.
- Dar opinião durante um desabafo.
- Vender livro autografado.
- Despertar discussão sem motivo.
- Ignorar cachorro abanando o rabo.
- Ignorar o gato massageando o tornozelo.
- Ignorar a Deus.
- Interromper meu sono.

novembro/2012 - Da série "Listas que pegaram delírio"

terça-feira, 30 de outubro de 2012

PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Se a esperança é a última que morre,
por que eu já desacredito de todos que me falam palavras boas,
afirmando que meu futuro é brilhante e que não dependo de ti pra ser feliz?
Se tu não me queres por perto,
por que finges que sou importante e que se interessa pelos meus livros,
perdendo tempo de semear para simplesmente me desnortear?
Se a vida é mesmo assim, injusta,
por que ainda desejo um afago verdadeiro,
muito mais do que uma massagem no ego que só permeia a área do conceitual?
Se a matéria é muito menos importante do que o abstrato,
por que ainda tento te encontrar em qualquer esquina,
e necessito tocar-te como um colecionador a uma peça rara?
Se o poeta finge escrever a dor que sente, por que minhas palavras me dão um certo alívio,
de maneira que até as portas que eu considerava solidamente trancadas se abram num piscar de olhos?
Se o destino está feito de maneira ímpar, impossível de modificar,
por que realmente acredito estar à mercê de um sentimento,
não sei se a saudade, a falta da presença ou o próprio afeto,
que pode me tornar assim, esperta e sincera,
a ponto de questionar tudo isso na tentativa de viver a felicidade?
Eis algumas de minhas perguntas.
Todas sem respostas.

outubro/2012

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O HÓSPEDE

A saudade brilha em meu coração. Estou há uma semana longe de casa, hospedada em um belo e antigo hotel no centro de Buenos Aires. O hall de entrada é minha varanda particular: me divirto analisando funcionários e turistas. E ali o vejo pela primeira vez. É bem cedo, chove. Ele atravessa a porta giratória lentamente. Alto, magro, traz um buquê e uma caixa de bombons na mão direita. Debruça-se sobre o balcão, limpa o rosto com o lenço, como se isso afastasse o cansaço da noite mal dormida.

A recepcionista o cumprimenta com um mecânico bom dia. Ele responde que procura por Helena. “Ela deve ter avisado que eu chegaria hoje”. A atendente acena com a cabeça positivamente e lhe entrega a chave do quarto 22. Ele vai até a mesa de jornais e revistas, quer se informar antes do café. Eu o examino e, ao mesmo tempo, admiro aquele que é meu escritor favorito.

Penso em pedir um autógrafo, já que estou com um de seus livros nas mãos. Posso comentar algo a respeito da história, ou, quem sabe, puxar assunto sobre cachorro, li em uma revista que ele adora animais. Observo meu rosto no espelhinho que sempre carrego no bolso. Minhas rugas estão especialmente enormes esta manhã. “A gravidade, essa vadia sem coração”, penso. Quero ir até lá. Mas não. Fico paralisada, agarrada àquelas páginas, como se fossem o antigo testamento roubado do Vaticano.

Eu o estudo com visível desassossego, despertando a curiosidade de uma senhora no sofá ao lado. Nem me preocupo com a retaliação. Em outros tempos, disfarçaria o inconveniente, mas não naquela manhã. “Helena... é o nome da esposa!”, lembro-me de que todos os seus livros, todos, são dedicados a essa tal. “À Helena, minha fonte de inspiração”. “Ao meu amor, sempre Helena”. “Para Helena, que não deixou que eu morresse”: leio nas primeiras páginas que carrego. Essa lembrança desencadeia uma reação em mim que não será exagero classificar de terrível. Eu tento compreender como aquele homem é capaz de aguentar a sujeita, ofertar-lhe flores e chocolates, dedicar-lhe seus livros e amá-la...

Meus olhos viajam entre a figura do escritor, a capa do livro, a dedicatória, o nome de Helena. Me lembro porque gosto tanto desse autor. É como se aquele escritor, um exemplar raro, que eu não conheço e que ao mesmo tempo faz parte da minha vida de bibliotecas, livrarias e histórias, me tirasse para dançar sem eu nunca ter saído da poltrona.

outubro/2012 - oficina com Áurea Rampazzo

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

WANTED

Procura-se: você que roubou meu coração.
Invadiu-me e o levou sabe-se lá pra onde.
Por favor, devolva-me!
Não seja egoísta. Traga meu coração de volta e suma de uma vez.
Olha, eu já espalhei tua foto pela cidade inteira.
Em cima, a palavra "procurado".
Agora, todo mundo vai saber quem és, o que fez a mim.
E tem mais: não és apenas acusado de roubo.
És suspeito, também, de contravenção,
humilhação, latrocínio, cárcere privado,
transgressão de princípios,
infração de sentimentos.

agosto/2012

terça-feira, 16 de outubro de 2012

VIVENDO E ESCREVENDO

Plantei em mim uma coragem que nem eu sabia que conhecia.
Expresso-me agora, então, pelas letras.
Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras ditas, é perigoso virar discurso, e isso eu não desejo: pessoas se reunindo à sombra de uma opinião como se fosse um guarda-chuva.
Gosto dos poemas e afins porque eu nunca fico sozinha no mundo, nem mesmo quando não sei pra que lado foi a vida.
Este é o meu "aqui".
Quando a saudade me estristece, escrevo.
Fico radiante, escrevo.
Sinto-me ignorada, escrevo.
Não encontro a porta de saída, escrevo.
Admiro passarinhos, escrevo.
Sou prolífica com as palavras.
Tudo é motivo para uma boa prosa se a alma é de verdade.

outubro/2012

POEMA DA RECIPROCIDADE

Canto uma canção de passarinho hoje: somente meus semelhantes me entenderão.

outubro/2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O MONSTRO

Com uma só mordida, o monstro consegue tirar duas vidas.
Não perde a arrogância, nem quando é derrotado.
Sim, ele é cruel. Adora provocar lágrimas. São doces como as lembranças de alguém.
O monstro reina insuportável.
Ele dilacera a quem ama, tem prazer em ser mau.
Transforma o homem. Modifica a mulher.
Mente afirmando que ceder é fraquejar.
O monstro criou os óculos escuros.
Inventou o "ignorar a chamada".
Concebeu o status "invisível" e o comando "bloquear".
O aluno monstro aprendeu conjugar verbos assim: eu desdenho, tu desprezas, ele desapega. Nós desconsideramos, vós rejeitais, eles renunciam.
Ele abre a geladeira sem motivo, observa como se fosse uma TV.
Não admira artistas, nem se apaixona por poesias, tampouco compra cds ou filmes.
Considera o tempo de qualidade uma perda de tempo.
Sua alegria é ver o otimista sofrer o aguardo e, depois, a negativa.
Mantem o suspense do não.
Esse monstro, seu nome é Indiferença.

outubro/2012

MICROCONTO DA MULHER QUE QUERIA SE TORNAR UMA PLANTA

Vestiu-se de erva do campo, aguardando os beijos silvestres de seu amado, colhidos só para ela.

outubro/2012

DESÉRTICA

Cansei da monotonia da cidade grande.
Vou para o deserto onde não há celular nem TV a cabo.
Ficarei, assim, admirando o vai e vem da areia:
as montanhas de poeira que mudam daqui para acolá sem, contudo, precisarem de orientação.
Vou-me embora para Atacama. Não, para Negeb. Talvez para Kalahari.
O continente não importa.
Sempre haverá um oásis; os camelos estarão disponíveis; os tecidos de linho cumprirão a função contrária e eu adoro essa inversão de papeis.
Partirei agora mesmo. Pularei na minha ampulheta particular. Escorregarei por entre os grãos. Me fartarei na macia cama multicolorida. Ficarei assim, indo e voltando. Com o tempo.
Sem maldade cá dentro nem buracos abertos no chão pra me engolir.
Realidade é para os jornais, para a TV.
Na minha opinião, a realidade deveria ser mesmo proibida.

outubro/2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

VIVENDO UM DIA DE CADA VEZ

Nem sou tão sabida assim
mas algo notei
por tudo que já andei :
é impossível prever um futurinho qualquer
ou saber quando se invade a contra-mão.

E já que a vida parece mesmo tão acelerada quanto dizem,
o jeito é não desperdiçar o relógio.
Não deixar que a madureza
enfraqueça as importâncias,
impedindo o admirar as pequenezas como ver o dia passar.

Não, não choramingo que não mereço isso ou aquilo.
Posso até merecer, mas não quero.
Aceito uma boa poesia, daquelas sem razão,
como se os versos pudessem, por si só,
realizar meus sonhos e desejos.
Sou pedra de cachoeira sentindo a água deslizar.

Quero apenas descobrir o que me paralisa
ou sob qual intempérie não prossigo.
Mas entendo que não é ocultismo nem vampirismo,
vodu, ponta de alfinete ou olhos de medusa.
O segredo é não se levar tão a sério.

Para ouvir enquanto lê: O que você quer saber de verdade

setembro/2012

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

DE TUDO, SEMPRE FICARÁ UM POUCO

Cada amor é diferente e são todos iguais.
Arrancam espinhos profundos.
Corrente elétrica que percorre o corpo inteiro quando toca-se a pessoa certa.
A distância do pensamento, tão superior, tão alta câmara, se reduz a uma lastimável dependência do outro.
É impossível e incomparável, uma energia concentrada.
O tempo flui sem dor, porém, continuo paralisada nesse pensamento em ti.
Quisera eu simplesmente não depositar minha felicidade em tuas mãos.
Sem analogias, nem meia volta, assumo essa total incompetência.
De tudo, sempre ficará um pouco.
No entanto, fui impedida de construir a confiança, a renúncia, o ganho a dois.
Por isso quero que tu fales de 10 em 10 minutos o quanto sou importante pra ti.
Por isso tenho tanto a dizer antes que você vá.
Pois quando eu te chamo nunca estás a me ver.

setembro/2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

MICROCONTO DA MULHER QUE PROCURAVA O HOMEM IDEAL

Ela descobriu:
- Essa busca não tem fim.

setembro/2012

O AMOR É PARA QUEM AMA

Vivo perto do mar e isso me dá uma certa alegria. Não que eu me aconselhe com as ondas ou faça oferenda às águas, não é nada disso. Mas a oportunidade de admirar esse horizonte e ter certeza de que ele não acaba nunca mais, me alivia. Tira dos meus ombros a carga de repetir sempre os mesmos erros. Prefiro fugir da simetria e frequento a praia sempre que estou em apuros, em dias nublados, quando a tempestade se aproxima. Olhar para o oceano me lembra que:
- o sonho não prescreve
- minha impaciência e indecisão já me levaram longe
- a fumaça por si só, não é fogo nem nada
- nem tudo eu posso dizer.
Observar a água imensa à minha frente é admirar a perfeição. Criar um instrumento com milhares de cordas e melodias e possibilidades. Lembra-me de que estou exatamente fora dos padrões, arriscando minha fortuna por um naco de doces. Sua falta de obediência pelo que sinto me irrita. Qualquer encantamento já seria um pouquinho de saúde pra ti. Mas não. O Amor é para quem ama.

para escutar enquanto você lê: O silêncio das estrelas

setembro/2012

terça-feira, 18 de setembro de 2012

SEM RESERVAS

Agora perdeu-se tudo.
A ousadia foi por água abaixo.
Não há bravura nem valentia.
Brio ou firmeza.
Eu te encontrei,
lambi tuas palavras
e foi como permenecer do teu lado.
Vou chovendo e nada se molha.
Estou fincada nesse laço consentido.
Prossigo sem reservas
porque enamorar-te
é abrir mão da coragem que mora cá dentro.
Você, simplesmente, me desalinha.

setembro/2012

HOJE ELE VIVE NA CAIXA DE RECICLÁVEIS

Ela acordou e disse com decisão, com certeza  nos olhos:
- Chega.
Estava cansada de ser preterida. Prometeu, naquele exato momento que, nunca, nunca mais iria figurar em segundo plano. Pôs uma bela roupa, ajeitou o cabelo, aninhou a bolsa e saiu de casa. Caminhou bastante, fez um trajeto diferente do que estava acostumada.
- Andando penso melhor.
Estava realmanete exausta de ser expulsa da história alheia.
Contentar-se com as migalhas passou a ser sinônimo de oferta. Estavam juntos a um passo do distante. Nessa história, os valores estavam invertidos. E ela perguntava a si mesma, neste pouco momento de lucidez, como havia atingido esse ponto...
Leu certa vez que "saudade é a alegria da dependência"... mas o que é poético e belo - e bem disse Fabrício pois o é - não servia de base nem matéria prima para sua felicidade momentânea.
- Precisas descansar.
Não, não! Parecia que ninguém entendia nada sobre nada.
- Estou esgotada, esgotada...
- Tira uma semana de folga.
Não!! tinha consciência de que ficar de pernas pro ar não era nem paliativo.
Ela sabia. Tinha que se libertar. Decisão que só ela poderia tomar.
Naquele dia, abriu a cabeça, pegou o sujeito pela mão e o jogou na caixa dos recicláveis.
- Agora sim. Te expulso antes de criares raízes em mim. - esfregando as mãos em sinônimo de trabalho cumprido.
Ficou livre. E vazia.

setembro/2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

NOTÍCIAS QUE EU QUERIA LER #3

Barbies internadas no Hospital de Brinquedos de Upper East Side

Pelo menos cinco bonecas da linha Barbie deram entrada no hospital de brinquedos situado na área mais nobre de Nova Iorque. As Barbies Motoqueira, Advogada, Stryper, Garçonete e Atendente de Call Center foram internadas com sintomas de envenenamento. De acordo com os médicos, foi necessário desmontar as bonecas para drenagem do líquido. As vítimas chegaram no Hospital amontoadas no jipe de Ken que, após socorrê-las, fugiu sem prestar esclarecimentos. Testemunhas, como algumas bonecas da linha Polly e várias Matrioskas, afirmaram ter visto a Barbie Dona de Casa nervosa em um bar da Lego. Ela teria flagrado Ken e as outras cinco Barbies se divertindo em horário comercial. Após deixar o local, com sangue nos olhos e esfregando as mãozinhas plásticas, Barbie Dona de Casa teria dito: - Elas terão o que merecem. Super herois de todas as classificações participam de uma força-tarefa, procurando a suspeita por toda a cidade.

NOTÍCIAS QUE EU QUERIA LER#2

Greve no call center

Dezenas de atendentes de telemarketing de uma operadora de celular realizaram protesto nesta manhã, após passarem o fim de semana recebendo ligações de consumidores que só conseguiam construir frases utilizando gerúndio. Impedidos de atingir a cota diária de vendas e atendimentos, os trabalhadores ainda foram surpreendidos quando descobriram que as teclas "mute" de seus aparelhos estavam quebradas. Em um protesto que parou a principal avenida da cidade,  exigiram curso de gramática com ênfase em conjugação verbal e nominal. A direção da empresa de telefonia celular informou que "estará recebendo os trabalhadores nesta tarde, para verificar se há possibilidade de atendimento do que os operadores estão solicitando".


NOTÍCIAS QUE EU QUERIA LER #1

Sequestrador é raptado por crianças

Um dos criminosos mais procurados do país se entregou na sede da Polícia Federal de São Paulo. Bituca, 40 anos, decidiu buscar ajuda da milícia após passar quatro dias sequestrado por meninos e meninas da Rua 16, na Favela do Lencinho. O bandido tem uma ficha extensa: é acusado de participar de mais de 20 sequestros, principalmente de crianças, idosos e mulheres grávidas. Bituca contou aos policiais os momentos de terror que viveu, sendo obrigado a tomar leite de magnésia, papinha de beterraba sem sal, chá de boldo e a ver na TV, 24 horas por dia, o dvd da Galinha Pintadinha, coleção completa de Xuxa só para baixinhos e acertar as cores de esmaltes da colorama pelo nome. Relatou que o mais difícil foi saber a diferença entre "nude" e "sexy nude".


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

ADEPTOS DO AGORA VAI

Coisa que me dá raiva no mais alto grau de antipatia é aquele pessoal adepto da filosofia do "Agora vai!!". O mundo tá desmoronando ou estamos naqueles dias em que temos dois pés esquerdos, sabe? Aí, lá vem a pessoa com uma camada gordurosa de otimismo e diz: Fica tranquila, vai dar tudo certo! Ai que óoodio. Com licença, posso curtir somente por um minutinho meu mau humor? Será que é pedir demais? Trabalhas muito, você tem que descansar. Passa uma tarde na praia e você vai ver como tudo melhora. Como assim? Como poderia um problema desaparecer simplesmente olhando pro mar? Porque, às vezes, a sensação é de estarmos sendo enterrados vivos, porque ser esquecido é isso mesmo. O conselho do pessoal adepto do "Agora vai" é um comentário velado te lembrando que você tem de ser competente em tudo, arrumar qualquer porqueira pra dizer que está acompanhado ou espalhar cartazes por aí divulgando sua felicidade. Obrigação de ser animado, contente e contagiante. Essa raça não consegue entender o quanto é importante acreditar no fracasso tanto quanto na vitória e que nos maus momentos, não adianta apenas empurrar o mérito pro além, pro invisível ou pro coisa-ruim. Aí me arrependo de não ter me dedicado desde a infância em prol da criação da máquina da invisibilidade. Ou de não tentar ser como os gatos que a gente encontra pela rua: se esguela pra chamar atenção e eles nem tchuns, saem desfilando em ovos e balançando o rabo com a mais alta ignorância e elegância. Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas hoje tô só no meu dia de Zé Pequeno. Vou perguntar pra esse povo do "Agora vai": tá feliz com a tua perestroika? Então, um golinho de vinho e tudibom!


setembro/2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

UM ASSUNTO RECORRENTE E CARO

Então é esta grande falta que me invade por todos os lados,
lambe meu coração por dentro
e me coloca em posição de afetos.
É ela mesma a própria manifestação do bem querer.
A carência que sinto não é de você,
é de estar contigo, é diferente.
É um pote de sua presença no armário
que eu observo ininterruptamente,
sem, contudo, abrí-lo.
Com essa nequice,
recupero sua importância
e lembro de minha insuficiência.
Recordo que não consigo viver sem depender de você nem de ninguém.
Estou inapta.
Assim, sinto o sabor das pequenas ofertas
e não corro o risco de ser soberba
nem avarenta.
Arrisco um palpite:
demoro a realizar o simples
para garantir menos tempo sobrando
e não me lembrar de ti nesses recuos.
Gostar é duvidar,
criar poblemas e curtir cada um deles.
Me engasgo com essa saudade.
Estou tossindo até agora.
Acho que essa privação custa caro pra mim.

setembro/2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

CHEEK TU CHEEK

eu
você
esta dança
rosto colado
Sinatra
se declarando
para nós

não tem luxo
nem vela
nem meia luz
apenas esse som
aquela voz
cheek tu cheek

fecho os olhos
escuto melhor
esse compasso
o metrônomo
do meu coração
tum! tum!

meu pescoço
beija tua boca
minha cintura
busca tua mão
sou feliz então,
desde então.

setembro/2012

O HOMEM QUE NÃO CONHECIA A GRAVITAÇÃO UNIVERSAL

O homem ousou desafiar a força fundamental da gravidade.
- Dormirei no teto.
Assim o fez.
Nem mesmo os cabelos já compridos, escorrendo no sentido do chão, o acordaram do sono reparador.
Pela manhã, ainda com as meias, caminhou pelas paredes recém pintadas.
- Tomarei meu café suspenso.
O cheiro matinal percorreu o apartamento por cima.
E o homem vestiu o terno sobre o guarda-roupa.
Chegada a hora de ir para o trabalho,
instigou a própria sabedoria.
- Queria possuir a inteligência do universo para descobrir como deixar essa casa.
Começava a ficar tarde.
Abriu a janela.
Caiu na horizontal, depois verticalmente.
Quanto chegou no chão, continuou andando.
- Há muito suspeito de mim.
No escritório, ele agia como se nada tivesse acontecido.
Impune, o homem fingia acreditar em tudo que Newton descobriu.

setembro/2012

sábado, 8 de setembro de 2012

SORTE DO BISCOITO CHINÊS

No ramo inclinado de minha vida
está tudo gravado.
A serenidade da violência branca do teu silêncio
atravessa-me.
...
Parte-me em duas, em três, em mil pedaços.
E você, esse risco desejado,
é breve e definitivo.
..
Tu corres na brisa.
O encontro na nuvem.
...
Durmo no campo,
beijando meu sossego.
Lhe rogo que se aplaque de mim.
...
Estou farta dessa extrema poesia.
Exausta, obsoleta, não a fim.
...
Nada é tão cruel.
Nem a doença que intimida.
Nem o medo que mancha.
...
Passo a mão na aspereza dessa saudade.
Ceio com a indecisão.
Desejo de voltar mais cedo pra casa.
...
Meus olhos são pequenos para enxergar
o restante da realidade,
as outras oportunidades,
as possibilidade que tantos me dizem existir.
Já duvido de toda essa gente.

setembro/2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

DESGUARNECIDA

há dias em que as horas se arrastam
sinto-me intoxicada com pensamentos autônomos
alguns felizes
outros infelizes
impedida de continuar amando
trabalhando sem alegria nesse sentido

fico aliviada em dormir
encerrando em meus sonhos
e em meu sono
a solução para todas as coisas
a noite vela por meus esquecimentos
o breu me dispensa de morrer

ao amanhecer
me reponho em faces de felicidade
estou estragada pelos instantes idos contigo
resta-me aceitar a vida
a injusta distribuição de sonhos
seguir colecionando a mim mesma
e assaltando meus melhores momentos do amor

setembro/2012

terça-feira, 4 de setembro de 2012

CONSELHOS PARA TI, MAS EU NÃO SOU NENHUM EXEMPLO

Frequentemente, os pensamentos ficam rudes dentro de nós...
É muito a dizer... e o tempo é tão curto...
Não querendo se despedaçar, se vende a prazo...
Finge que esqueceu...
Finge que se lembrou de alguém...
Finge que não foi por querer que entregou aquela possibilidade ao mais absoluto mal-me-quer...
Olha, toma cuidado para que tua razão não estrague teus melhores tempos de amor...
Vê, para que, com essa mania de preconizar a virtude da liberdade, não percas muitíssimas horas de semear...
Quando consegues dormir, achas mesmo que estás dispensado dos problemas...
Eles não te largam...
Você os acorrenta, os acomoda, os segura pela mão...
Tens o coração orgulhoso...
Ainda assim, queria falar sobre minha vida pra ti, mesmo não encerrando nenhum exemplo...
Te relatar como prosseguiu minha terça-feira...
Contar como foi o dia abre uma perspectiva de carinho...
E, sabe, é um privilégio ver sua mente funcionar...
Pensas em entregar apenas uma parte de ti...
Nem o faças...
Se oferecer pela metade é quase oportunismo...
Aceitas tudo, tudo isso, porque sozinho não podes acabar com a tua solidão.

setembro/2012

BRIGA DE CASAL

Chorar de raiva
É quando a tristeza
fica de mal com sua senhora.

setembro/2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

BEM MELHOR QUE VOCÊ

Minha pele é melhor do que a sua,
acho que tenho mais poros que você.
Por isso, respiro soberanamente.
Tenho certeza de que o cheiro do café é mais insinuante perto de mim.
Possuo costas fortes.
E não me admira descobrir que minha concentração é mais clara, definida, mais obtusa, talvez até mais eficiente.
Sinto-me aliviada por gostar de ti e não suportar o teu amor sobre os meus ombros.
Creio, assim, seja mais fácil a caminhada.
Sigo leve, meu sentimento a tira-colo.
Sou mais interessante, quiçá sublime.
Não finjo e nem me engano.
Choro porque estou com raiva.
Choro com força por tudo que eu quero.
E sempre estou por dentro de ti porque meu olhar é demorado.
Sou assim, talvez, porque desconfio de quem me observa de qualquer maneira.
Não que você não me mereça. Não que eu não sirva pra ti.
Não é nada disso.
Apenas sou bem melhor que você, bem melhor...

agosto/2012

MEIO CHEIA DE TUDO

Há dias em que meu rosto amanhece nublado e eu preciso de um toque.
Uma palavrinha besta, um abraço mais ou menos apertado, um beijo na testa.
Qualquer gentileza de propósito serve.
É uma ausência de tanta coisa...
Não é só o receio de escorregar, nem de cair.
É temor de sentir o sangue na boca depois de arrebentá-la no chão.
Não costumo ser medrosa com isso - tenho pavor mesmo é de barata, de assalto, da indiferença.
Mas como eu ia dizendo, neste dia eu sinto falta é de um carinho.
Uma borboleta saracuteando por perto, atrapalhando-me ao caminhar, já isso seria bom.
Hoje eu estou assim... um pouco neblina, um pouco apagada, um pouco sem saco pra nada.

agosto/2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

BONS TEMPOS...

Eu sou do tempo em que as pessoas se telefonavam de casa.
Que se sabia receber elogio tal qual ele é: uma gentileza.
Que fingir interesse era coisa de gente de sangue ruim.
Que pedir exclusividade era natural.
Sou da era em que as drogas se resumiam a maconha, cocaína e heroína.
Que não se pagava 300 reais para ver alguém no palco.
Que com duas moedinhas era possível comprar uma café na padaria.
Que não havia morte nos desenhos animados.
Sou da época em que amizade já vinha de mala pronta.
Que pedir desculpas era gesto nobre, não fraqueza.
Em que relacionamentos não eram descartáveis.
Que as pessoas não eram descartáveis.
Sou do tempo em que o amor não se adquiria no atacado pois era raro de se encontrar. Bem... tem coisas que definitivamente não mudam.

agosto/2012

  

MINICONTO DO MENTIROSO

Lavou o rosto e começou a mentir naquele dia.
Esta era a sua rotina: iludir, enganar, defraudar, fazer-se de sonso.
Já fazia parte da pele.
Sentia-se até mal quando passava o período sem a oportunidade de uma mentirinha, uma qualquer, uma quase sem consequência.
Bom mesmo era inventar uma história mirabolante, daquelas de encher os olhos alheios de surpresa.
Suas vítimas eram escolhidas a dedo.
Egoísta e cuidadoso, era inteligente, tinha lábia.
Primeiro, fazia sentirem-se especiais e únicas. Invencionice dele. Mal sabiam as coitadas das pessoas que nem número possuíam. Eram as próprias sem-memória, descartáveis, passadas para trás.
O prazer desse mentiroso era criar um sofrimento falso para ele e totalmente real para os outros.

agosto/2012

QUEM PODERÁ ME DEFENDER?

Encantar-se por alguém: isso é realmente incômodo. A determinada alma torna-se prioridade - ainda que momentaneamente. Encantar-se fica bem no meio-termo entre passar batido e apaixonar-se. E eu tenho medo, muito medo de tudo isso. Ao te encantares dá-se tudo por alguém: tempo, dinheiro, atenção, nosso corpo. Anotamos em cadernos as mínimas coisas que são ditas, registramos os segredos como semi-joias, repescamos fatos em nosso passado só para dizer que temos algo em comum. A gente jura que não sabe como começou... mas se apavora só de pensa como pode terminar. E a única forma de não deixar se escravizar é apaixonar-se por outra pessoa. Oh céus!!!

agosto/2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

COISAS QUE EU APRENDI

Aprendi com o tempo que nem tudo tem resposta.
Descobri que há coisas que são mesmo inalcançáveis.
Percebi que ainda fico boquiaberta por te admirar demais,
fico assim quase fraca, quase sem ar.
Perco espaço no desejo de acertar.
Entendi que podemos ser o que somos, enfim.
Soube das minhas experiências futuras o que não desejo ainda,
embora isso não faça muita diferença no cerne do sofrimento.
Compreendi que nos dias bons tudo tem solução.
Nos dias ruins, não há o que fazer.

agosto/2012

REVISITANDO-ME

Não serei mais escravizada pela rotina.
O título de cidadã mais eficiente do mundo, esse eu deixo como herança.
Toda essa disponibilidade canalizo para os livros - é o que me interessa no momento.
Penso em revisitar minhas prioridades. Não, isso não quer dizer que as mudarei de lugar, pelo menos por enquanto.
Mas olhando para o mar, hoje eu me livraria de todos os meus meus planos só pra te abraçar.

agosto/2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

EU FIZ O QUE PUDE

Tentei abraçar a sorte mas ela me
e
 s
  c
    o
      r
       r
        e
          g
            o
              u
pelos braços.
Correu como água.......................................
Inutilmente, tentei  prendê-la com uma     a   u   s   ê   n   c   i    a    que me ilude.
Uma ausênc(  ).
Essa burrice que se repete em mim.
Combalida por um esforço inglório, -fiz o que pude, -fiz o que pude, -fiz o que pude.
Repito para não me esquecer de que eu fiz o que pude.
É uma pedra na consciência me lembrando de não seguir minha consciência da próxima vez. Minha consciência nega-se a si mesma. Ela é tão esperta que tem consciência que tomará a decisão errada.
Sabe também que é impossível voltar no tempo <<<<<<<<<<<<
para desfazer, desremediar, desdecidir, desaprender, desgostar.
Calo-me, então. Não servirei mais de pauta nem de chacota.
Não permitirei a mais ninguém perder tempo comigo.
Gasta-se tempo comigo e eu, ao contrário, invi$to em um poço sem fundo, em um bolso furado,
jogo em ações no pé da lista. Perco tempo e dinheiro e acho que estou abafando.
Me engano. Minto pra mim. Deixo-me de molho, em banho maria. Me demito sem direito a aviso-prévio.
O poeta já avisou: as possibilidades de felicidade são mesmo egoístas, meu amor.

agosto/2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

MEU NOME DORME

Não escreverei mais sobre ti nem sobre o amor.
Esta é a última vez.
Eu juro. Prometo (cruzando e beijando os dedos).
Mesmo que a poesia torne meu coração mais leve.
Cheguei à conclusão de que você nem merece tanto,
nem se interessa por essas palavras, nem por mim.
Toma essa moeda: faz um desejo, joga-a na fonte.
Tá vendo? Nem estou nesse pedido aí... é disso que estou falando.
Meu nome dorme para ti.
Com rivotril, prozac e diazepam.

agosto/2012

ESTÁ-ME NO SANGUE

todas as coisas estão bem
e de repente
chega o desejo e estraga tudo.
matutar em ti
é enjaular pensamentos;
ficar refém do I-Ching infame do celular, do e-mail.
só me resolvo quando te olho.
meu coração traz essa explosão,
é uma eclampsia de saudade.
está-me no sangue.
no meu sangue revestido de veludo.

Para escutar enquanto lê: Mão e luva

CONCLUSÃO

o dESEJO pRECEDE O bEIJO
oU sERÁ
aQUILO qUE nÃO vEJO?

agosto/2012

INDOLENTE

A mania do preguiçoso
é deixar passar a oportunidade do amor
porque dá muito trabalho...

agosto/2012

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

LEMINSKI ME ACONSELHA SOBRE O BEIJO

Oi amigo. Hoje estava pensando que tudo ficaria mais fácil se resolvêssemos as situações com um beijo. Simples assim. A pessoa chega com aborrecimento e zás!, lasca-mo-lhe um beijo. Conta um segredo smack!, beijo. Se rebela contra o mundo, não há motivo melhor para zupt!, beijo. Você faz planos, o desejo chega e bagunça tudo, eis a solução: ziu! beijo. Um aborrecimento, um estresse desnecessário, oh céus, como resolver? Ah! Ploc! beijo. Para aqueles que pensam que são muitos espertos, nhac! beijo. Para outros que se submetem porque se acham somenos, swip! beijo. Lá vem ele se debulhando em lágrimas e, chuác! beijo. Pede alguma coisa pra eu fazer e, pumba! beijo. Para o romântico, ai, esse eu considero merecer um shhhh! beijo. Concordas comigo?



Querida,
beijos nos aproximam do céu. Mas cuidado...

Depois de muito meditar,
resolvi editar 
tudo o que o coração me ditar.




para ouvir enquanto lê:
Os Beijos

terça-feira, 14 de agosto de 2012

UMA MOÇA DE RESPEITO

Hoje procurei um cartório para registrar minha saudade. Nome e sobrenome. Ela é diferente, assim bonita, bem acabada, desejosa, com gosto de bala de morango. É uma saudade boa de doer. Filha só de mãe. Por isso, acho que ela merece ser alguém. Até porque ela existe só porque você existe. Pra ti, basta saber que ela há, que ela está, que ela permenece encastelada entre nuvens de algodão ou o fio da noite. A folia da minha saudade é ter você por perto. Aí, é sempre carnaval.

agosto/2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

HONESTAMENTE

Eu não sei querer-te menos.
Menos que totalmente.
Honestamente,
não posso dizer que consigo.
Acontece sem que eu perceba.
Como mosquito sugando meu sangue.

Eu não sei desejar pela metade.
Talvez você saiba,
talvez me ensine,
talvez sussurre
esse segredo em meus lábios.

Eu não sei andar a meio caminho.
Ainda que só receba argumentos contra.
Mas como argumentar contra a lógica
de um amor que já existe?

Eu não sei escrever pra ti,
não sei dedicar-me preciosamente,
não sei te entregar.
E minha ideia
é que esse poema flutue
até chegar à tua casa.

agosto/2012

LEMINSKI ME ACONSELHA SOBRE OS ERROS

Oi Paulo... Estou aqui de volta, contando as lasquinhas ou juntando esquirlas, como se diz em espanhol. Estou numa fase, digamos, curiosa pelo espanhol. Mas não, esse não é o nosso tema de hoje. Vou falar sobre meus erros e como, às vezes, eles tomam proporções gigantescas. Um cisco que vira pedregulho. Erros são gametas. Veja bem: mais fácil é ser covarde do que chegar na vida com o pé no peito. Há tempos atrás eu até debatia meus erros e acertos com algumas pessoas. Mas os conselhos eram sempre tão diferentes que me confundiam ainda mais. Atualmente, erro e pronto. Me precipito e pronto. Me antecipo e pronto. Às vezes dá certo... às vezes não... O fato beira o deboche, mas eu prefiro esgotar as possibilidades antes de me conformar.  Acho que não tenho vocação para o sofrimento... o que tu achas?



Querida,
erros precedem acertos.

Nunca cometo o mesmo erro duas vezes.
Já cometo três, quatro, 
cinco, seis. 
Até esse erro aprender
que só o erro tem vez.

sábado, 11 de agosto de 2012

EXTRADIÇÃO

Cansei de viver à margem.
Não sobrevivo das migalhas caindo da mesa.
Por isso, acabei de decidir:
Tô te extraditando de mim.

Agosto/2012

EU MIMO VOCÊ

Comprei sapatos magnéticos. Vou caminhar lentamente em ti e dançar um solo de gafieira sobre o piercing no teu nariz. Não quero agir com aspereza, fique tranquilo. Vou tratar da tua aparência. Passarei tua camisa predileta no teu corpo. Gola, braços, costas, punho. Farei vinco, se assim desejares. Continuarei zelando pela tua vida. Acendo uma, dez, cem velas pra tua alma quando estiveres trocando o gás. Não, não se preocupe, é impossível agir em detrimento de promessas, acredite. Pode deixar que eu velarei o teu sono. Vou soprar um apito em teu ouvido, às 4 da manhã, só pra te lembrar do início da partida e que não se começa uma relação pelo fim. Também cuidarei do teu bem estar. Aquele retrato que você não gosta jogarei no chão, ficará em mil pedaços, ficará desfigurado. O espelho é um quebra-cabeça que não dá pra recuperar. O quê? Debochada? Logo eu que só penso em te agradar...

agosto/2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

REPAGINADA

A jovem jabuticaba
cansou de sua escuridão.
Pulou da sua casa-tronco
direto no pé de algodão.

agosto/2012

LEMINSKI ME ACONSELHA SOBRE A CASA

Oie Leminski! Estou com um pé na casa nova. Em breve, será o par. Domo est mundi! E a felicidade é tamanha saber que meu mundo não cabe somente em um espaço de metros quadrados. Minha vida é a poesia, família, amor, meus livros, cachorro, chocolate, café, e por aí vai. Investimos nossas parcas economias a fim de erguer um castelinho de caprichos e delícias. Escolhe aqui, decide ali. Colorimos paredes, pintando desenhos com canetinha. Cada detalhe é precioso e imprescindível. O fato é que a novidade cheira a mar aberto, à estacionar na areia com aquela água toda despejada frente aos meus pés. Me apetece a ideia de batizar a casa nova com um sobrenome, cada cômodo com um nome, o que tu achas? Gostará o lar de ser chamado por uma alcunha escolhida por mim?


Querida, toda casa tem seus mistérios... mas ela torna a gente livre lá dentro.

Liberdade:
vento
onde tudo cabe.



MICROCONTO DA DESERTORA

Fugindo do amor e da guerra interior
guardou o coração na mala
e o despachou para El Salvador.

agosto/2012

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

AMOR DE JACARANDÁ

Penso em ti.
Nó na madeira
da minha cabeça oca.
Esse amor -
madeira de lei
replantada em tantos outonos,
agora é valiosa.
Arando a terra,
Renovando a sega,
Lambendo a sombra da minha saudade.

agosto/2012

INDECOROSA

Indecente saudade.
Deixa nua
minha felicidade.

agosto/2012

POEMA EM ÁGUA CORRENTE

Poesia é Rio
Pedra
Cachoeira
Riacho.
Desagua 
as ideias submersas
lá embaixo.

agosto/2012

LEMINSKI ME ACONSELHA SOBRE A ANSIEDADE

Olá Paulo, queria desabafar. Sinto-me ansiosa. Isso me deixa ainda mais preocupada porque me ataca a asma. Não gosto que me falte o ar. Tenho sentido algo diferente, aqui dentro ó. Como som de orquestra armorial. O inesperado. Feito criança que retorna da brincadeira cheia de novidade. Uma delícia de manifestação nos braços da manhã. É uma coisa derramada, nada contida. Algo que não tolera ganância. Por fora é pele, for dentro é ouro. A Neide sempre me diz duas coisas: não ama menos quem diz menos e quem gosta quer estar por perto. Você acha que ela tá certa?


Querida,
tens medo do quê?? 

A vida são as vacas 
que você põe no rio
para atrair as piranhas
enquanto a boiada passa.




LEMINSKI ME ACONSELHA SOBRE A SAUDADE

Oi Leminski, tô aqui pra dizer que estou descontente com essa saudade. Me perdoe se por algum momento me achares piegas ou coisa do tipo. Me dê um desconto. É que lendo Fabrício, percebi algo que me fez pensar: "A saudade é a certeza de nossa insuficiência". É verdade. Que poder é esse que ela tem sobre nós? A necessidade da presença e o anseio pela solução imediata que não chega, evidentemente, fazem-me sentir impotente. Não gosto. Na realidade, o que desejo mesmo é estar com as rédeas nas mãos e o GPS na mente pra não deixar o cavalo escolher o caminho. Difícil, inadequada, inconveniente, inoportuna saudade. Bom mesmo é quando ela chega e a gente diz, sem titubear: - Volte mais tarde. E, Pá!!!, bate a porta na cara com tudo porque já se antecipou. Existe um vale-saudade? Antídoto pra falta de alguém? Remédio pra pensamento excuso? A surpresa inevitavelmente me arrasa. Ah! A segurança de saber quem sou, onde estou, para onde vou... Será que conseguirei sentir isso um dia?



Querida,
A saudade nos aproxima de quem é de nosso paladar...

A noite - enorme.
Tudo dorme.
Menos teu nome.






quarta-feira, 8 de agosto de 2012

FUGI SEM VOCÊ

Saí sem recado, com pressa,
por isso deixei a porta escancarada.
Tive que fugir sem você.
É do teu olhar me trancar
o meu medo mais vacilante.
Melhor prevenir.

agosto/2012

LEMINSKI ME ACONSELHA SOBRE MEUS SONHOS

Olá Leminski! Precisava mesmo conversar com você. Hoje tive um sonho. Daqueles que nos flutuam durante o sono e nos arrastam para o penhasco quando acordamos. Estava em uma festa. E aquela pessoa, aquela que é do meu paladar, aparecia, vestida como lua na nuvem. Por um momento nos perdemos. Uma moça me pediu um cigarro - logo eu que não gosto de pitoneiras... Achei um inteirinho dentro de um copo, molhado de vinho. E não é que ela conseguiu acender? Sonhos são bons porque não há impossíveis. Do lado de fora do casarão, já era uma estação de trem. E ele estava lá, pousado na mureta. Camiseta preta, olhos acesos. Um sorriso de "estou aqui só pra te ver". Quando ia me aproximando, senti meu coração batendo forte, no sonho e deitada na cama, tenho certeza de que minha aorta estava a todo vapor. Eu vi aquele olhar e parecia que, naquele momento - eu sei - eu fui laçada. Eu  ri no sonho. Sorri de felicidade e desespero. Nunca havia encarado alguém tão de perto em uma nebulosa dessas da manhã. Quando fui abraçá-lo, o despertador me chamou. Por que, Paulo, por que a gente sempre acorda na parte mais interessante, na mais importante, me diz? 



Querida,
permita-se sonhar.

Minha mão dormiu
e sonhou que a tua
me acenava
de um navio.




PASSARINHO NO FIO... DO CORAÇÃO

Ganhei um passarinho.
Mas não são peninhas quaisquer,
minha irmã me deu.
Acredito, não há nada que simbolize a confiança de maneira tão fugaz quanto isso.
Ela o alimentava. Saciava a sede. Acarinhava.
Não, o passarinho não era dela.
Sempre pertenceu à natureza, somos apenas seus mordomos.
Um dia, papai nos deu passarinhos.
Um para cada irmão.
O meu foi passear e nunca mais voltou.
Ao abrir a portinhola ele ainda acenou pra mim,
quase dizendo: Vou sentir saudades...
Chorei sua falta. Sorri sua liberdade.
Tanto tempo depois, a história se repete.
Uma legado leve, de canto mágico,
olhar assustado como deve ser o de uma boa supresa.
Meu passarinho não é meu, é da minha filha.
Ele é a herança da minha herança.
Acalento, zelo, defendo, protejo.
Porque hoje,
abrindo a gaiola e fazendo carinho nele,
eu descobri que antigamente
tudo cheirava à eternidade.

baseado na história de Joyce, Manu e seu passsarinho, agosto/2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

PRAZER, PAULO LEMINSKI!

Paulo Leminski é um dos escritores que mais me apetecem. Criou coisas tão lindas e que significam tanto pra mim. Desde muito jovem me aconselho em seus poemas e recebo seus haikais como um mimo, um buquê de flores. Por isso, a partir de hoje, me dou ao luxo de bater papo com Leminski. Acho que ele me entende, acho que vai me entender. Portanto, você, querido leitor do blog, não assuste quando aparecer uma conversa com o poeta.


agosto/2012

DAS COISAS A MEU RESPEITO

Existem algumas considerações básicas a meu respeito.

Café -> indispensável
Não dispenso um bom lodo espesso de cafeína. Sou perita. Sei quando está forte demais, quando erraram a mão no açúcar, quando foi requentado. Não gosto de misturar café com outra coisa. Café é café. A história de que a tinta preta deixa a gente desperta, pra mim não funciona. Problemas, amor não correspondido, contas a pagar, isso sim me deixa sem sono. Café, não.

Sono -> imprescindível
Tenho inveja de quem se contenta com 4, 5 horas de cabeça no travesseiro. Eu não consigo. Aliás, para dormir é um ritual: luz apropriada, mil almofadas, edredom fofinho e com cheiro, imaginação,  TV. Penso até o que poderia sonhar naquela noite. Às vezes, dá certo. Gosto de cochilar em viagens; qualquer sacolejo me embala. Não me acorde para o lanchinho da GOL. Pra mim, sonolência pesa mais do que fome no quesito irritação.

Chocolate -> necessário
Não faço promessa por uma gotinha de mel mas me ajoelho por um bom chocolate. A comilança tem início pelo cheiro. E eu não sou preconceituosa. Admiro o trufado, branco, com licor, crocante, meio-amargo, mas fico babando por um com recheio de maracujá e mataria por um 80% cacau. É o alimento dos deuses do carpe diem. Nutela, iô-iô cream e tudo mais também estão na dança.

Livros -> essencial
Sinto inveja dos escritores. Queria ser cada um deles. "Como ele se apoderou dessa ideia que vive dentro de mim?" - vivo repetindo esse mantra. Um bom livro é para ser saboreado em diferentes fases da vida. Aos 15, o livro do Carpinejar tem um sentido, aliás, quase não entenderás nada. Aos 20, o autor é louco, quase devasso. Aos 30, uma descoberta científica. Aos 40, um gênio. No silêncio da leitura é que as coisas aparecem. Quero uma biblioteca gigante, não gosto de me despedir dos meus livros. No máximo, dar de presente. Tenho cíume deles.

Asma -> importante
Não vou a lugar algum sem minha bombinha. Outro dia li que a baixa de oxigênio mata neurônios. Ou seja, se eu não cuidar da minha Asma, emburreço. Por isso, fiz um propósito de usar o inalador uma vez por dia, só com soro. Ele está sempre a postos. Descobri que quando fico nervosa ou muito ansiosa, meus brônquios também se comprimem. Agora, relax total. Preocupação, só em último caso e com o nebulizador ao lado.

Passado -> petrificável
Pra mim, o presságio do horror é ficar lembrando de coisas passadas com aquela saudade que não traz nada, só infelicidade. Tem gente que só falta colocar música do Lionel Richie e saborear as lágrimas vendo fotos antigas, cartas, bilhetinhos, cartões de floricultura. Faço o possível para deixar meu passado em seu lugar, mesmo que ele irrompa em semblante de delicadeza. Gosto de mantê-lo fossilizado.

Ciúme -> controlável
Meus relacionantes sempre foram muito espirituosos, engraçados. Eu pensava: Ah! Vai ser gentil assim lá no inferno! Mas como reclamar do cavalheirismo?? Antigamente, até matutava "Destesto que não me obedeça" já sorrindo por dentro do absurdo que desejava. Sofri muitos desagravos em nome do amor e do bom comportamento. Hoje, mantenho a compostura e o ciúme enjaulado em uma prisão de segurança máxima nas Ilhas Filipinas. Com o tempo, passei a desenvolver cegueira e surdez seletivas. Tem dado certo.

Criação -> incontrolável
Saúde é ter a mente desobstruída. Para criar, não preciso de lugar específico, a música pode estar estar alta e as pessoas falando. De repente no restaurante e pá!, lá vem a ideia. Conversando com a arquiteta, entre cores e papel de parede e pá!, lá vem a inspiração. Basta ter um espaço para anotar. Me derramo sobre as teclas e é tudo muito natural. Costumo dizer que não sou artista, não me considero, mas prolífica assim, é a desforra final da minha vã desconfiança. Não consigo controlar.

Indiferença -> execrável
Melhor seria me esquecer de uma vez do que me tratar com indiferença. Muito pior do que ser odiada é ser ignorada. Os que são indiferentes a mim, incluo a todos como figurantes do Thriller. Tenho raiva de quem faz olhar blasé sem uma gotinha de suor; vira o rosto de propósito; põe óculos escuros pra disfarçar o crime. Quem inventou que indiferença é modernidade??

Cachorros -> fundamental
Ando na rua, procurando cachorros para agradar: é quase um TOC. Sorte minha que nunca levei uma dentada de algum cãozinho maltrapilho. Em geral, eles são bastante solícitos, reconhecem a simpatia e estendem a pata quase sorrindo. Tenho mania de cuidar dos cachorros dos outros. Havia uma época em que eu conhecia 'todos' o cães que viviam em uma rua que era minha passagem obrigatória para o trabalho. Eu diminuía a velocidade só pra verificar se estavam todos bem. Às vezes, parava em uma casa ou outra para conversar com os mais simpáticos. Hoje, Magali reina absoluta em meus sonhos, no pé da cama, em meu coração.

Amor -> vital
Essa é a melhor parte da vida. É no amor que eu traduzo o que me embaralha. Pra mim, é uma cartografia generosa e a diferença está, justamente, como seguimos esse percurso. É sempre uma boa supresa. Arrebenta os laços que imaginávamos. Coisa mais linda é viver o amor sem adiamentos nem desculpas. Ele acontece. O amor nunca está cansado.

agosto/2012

UM DIA PERFEITO

Hoje deu tudo errado. Dormi em cima do braço e acordei com a mão formigando. O canudo do meu Toddynho afundou bem no meio do caminho. Tropecei na avenida, dei aquele pulinho de quem vai começar a trotar e não teve jeito: o homem do milho viu e deu risada na minha cara. Fui fazer carinho em um cachorro de rua que rosnou pra mim, se insultou com o "ó, coitado!". Fui enviar um e-mail engraçadinho e justamente nessa hora, meu chefe apareceu pra pedir alguma coisa. Bah! Que dia comprido, o que mais pode acontecer? Fui apreciar um cafezinho com bolo de fubá mas ele saiu frio da garrafa térmica e eu dei um gole.  Na saída do trabalho, vento e chuva e eu de regata e meus pés esparramados em uma rasteirinha. Mas daí, virei a esquina, encontrei você e o dia inteiro valeu a pena.

agosto/2012

ESBOÇO DA VIDA ALHEIA

Se cansou de tanto programar a própria vida.
Isso nunca foi seu forte.
Nunca dava certo.
- Eu me sinto tão perdida... tão confusa...
- E quem não se sente? - ele respondeu.
Então, sentaram-se na areia, apreciando o pôr-do-sol
e planejando a vida das pessoas que caminhavam por ali.

Da série "Diálogos delirantes", agosto/2012

MICROCONTO DA COLECIONADORA

Saiu com uma sacola 
recolhendo
olhares apaixonados pela rua.

Agosto/2012

NÃO SEJA MENDIGA CONTEMPORÂNEA

Há algum tempo aprendi que ficar mendigando a presença dos outros é algo contra a natureza humana. Quem o faz, se mutila sem perceber. Descobri que devemos valorizar as pessoas que merecem o crédito, mas lamber as mãos e escutar um "sai pra lá" já é demais. Fico louca da vida quando vejo essa cena nas ruas, no restaurante, no shopping, na livraria. Minha vontade é dar um pulo bem no meio do casal, esticar o dedo no nariz do palhaço e da moça e falar-lhes umas poucas e boas. E ainda dar uma piaba no meio da testa dele, avisando: - Nunca mais faça isso! Mas Deus deu a cada um a própria vida para que possamos cuidar dela...O fato é que ultimamente há muitas mulheres que têm deixado a situação difícil para todas as outras. São aquelas que aceitam todas as provocações, contrafeitos, silêncios e demais arrogâncias "em nome do amor". PelamordeDeus! Amor não é isso, minha gente! Amar alguém - seja esse "amor" um apaixonamento, um caso à toa, um namoro sério, um namorico, um casamento - é respeito, doação, admiração. É estar junto sem, contudo, estar preso. É não criar caso por conta da pasta de dente apertada na metade. É costurar bem-querer na rotina não em ponto cruz, apenas alinhavando esse cotidiano. Meninas, não aceitem o troco em balas. Não se satisfaçam com qualquer chocolate com gosto de sabão, escolham o melhor, aquele de qualidade, que a gente come ajoelhada. Na dúvida, faça uma extravagância e passe na Kopenhagen pra se deliciar, tenho certeza de que vocês entenderão o que eu vos falo.

agosto/2012

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O DIFERENTE

Ele era um exemplar raro,
despertando a curiosidade alheia.
A comunidade científica o analisava com visível ansiedade.
Os últimos acontecimentos
desencadearam uma reação na comunidade
que não será exagero classificar de terrível.
Atônitos, todos tentavam compreender
aquele homem
capaz de aguentar a sujeita,
ofertar-lhe flores e chocolates,
dedicar-lhe seus livros
e amá-la.

Para Saramago, agosto/2012 

domingo, 5 de agosto de 2012

RIMA

Queria fazer uma rima coerente,
pra te deixar orgulhoso e 
pensares que sou diferente.
Criei, então, um poema 
com uma verdade semitransparente.
Evoluí, escrevi sobre a paz mundial e
perdoei até o malquerente.
Mas no meio do caminho,
a saudade me deixou, assim, aderente.
De tanto fingir que não ligo
abandonei meu coração, ficou carente.
Taí o resultado
de querer ser irreverente:
todo mundo tem notado,
o meu amor por ti já está ficando aparente.

agosto/2012

MINICONTO DA APAIXONADA

Falaram para o rapaz que vinho fazia bem ao coração. O moço, então, decidiu tomar um gole da tal bebida rubra. Ela nem pestanejou: pulou na taça pra viver dentro dele.

agosto/2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

CARTA PARA DEUS


Querido Deus,

Queria apenas dizer que hoje você caprichou neste fim de tarde. Céu rosinha com tom de branco, de azul bebê...Que paleta é essa que você usou? Combinou tão bem tudo ali no firmamento que parecia mesmo um quadro suspenso. Olhando dessa janela, consigo, ainda, ver as palmeiras rodeando a sala em que trabalho. O vento quente fora de hora também tem tudo a ver... o vai e vém da folhagem me remete a uma paz quase indescritível, porém, quase paupável. A impressão que tenho é que se eu esticar meu braço e tocar ali, também ficarei boiando... Obrigada, Deus, por me proporcionar tão bela pintura que se transforma... E matutando assim, te digo que há mais tecnologia nisso que você criou do que naqueles cérebros eletrônicos que fazem quase tudo. Uma obra que vai se modificando sozinha e que só termina quando eu fechar meus olhos ou mirar em outra direção. Você é o meu Monet! Amo você,

beijos,
Mô.



agosto/2012

A LEITORA

Sempre adorou ler, desde pequena.
Devorava prosas, deliciava-se em poesias,
embarcava em aventuras inusitadas.
Quando lia,
lambia o dedo para alcançar a próxima página.
Era perita em salivar as histórias.
E aconteceu assim.
Quando conheceu aquele broto especial
entregou um livro nas mãos dele e disse:
- Então, beija-me.


agosto/2012

ASMA AMIGA


Costumo dizer que devo muito de quem sou à minha asma. Foi ela quem me ensinou a respirar compassado, a ter um pouco mais de calma. Entender que muitas vezes sou obrigada a depender do outro. Reconhecer que falho, que meu corpo não me obedece, que não mando no meu nariz nem nos meus pulmões. A não ser explosiva diante do que está em perigo, contrariando as teorias de Nietzsche. E, olha, pra sentir essa falta de ar extensa não é preciso um gemido grego antes de começar. Minha asma me invade, praticamente manda em mim. É como se fosse atravessada pelo esterno. Ela coloca-me em lugar de destaque, de simples mortal. No sono, leva-me a mergulhar e ser barrada por uma pedra gigante que impede que eu suba à superfície. Minha asma conversa com meus sonhos. Eles são amigos. Quando está presente, nega-me uma das mais naturais reações humanas, aprendida por qualquer recém nascido: inspirar, expirar, inspirar, expirar... Todo asmático odeia comercial de margarina porque felicidade não é aquilo, felicidade é respirar, é viver, é amar. Aaaaaaaah!!


Cadê minha bombinha??, agosto/2012   

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

I AM WHAT I AM

Coisa mais chata se interessar por gente linear, sem tropeços nem ondulações. Quem não tem crise, não tem perguntas, não cai no ridículo. Gente que lê Valor Econômico, põe a roupa no cesto, não deixa os sapatos jogados na sala. Que me livrem dos resolvidos! Bacana mesmo é encontrar alguém pra conversar na mesma medida, seriamente e sobre amenidades, não ter suspeita pra falar a opinião, criar mal entendidos e resolver tudo depois com um beijo. Legal é saber que quem está aí junto não vai colocar o abraço pra lavar nem negar um selinho no pescoço; isso já seria avareza. E também nem desejo um companheiro fantasma. Eu viva e ele morto, ambos tentando se comunicar. Até porque o defunto não tem futuro, só passado. Já pensou que porre trilhar o caminho da segurança e nunca ter uma surpresa pra contar à noite? É por isso que eu te aviso: num dia eu desenho caveira, no outro, um coração. Dou ultimato. Acaricio teu rosto. E nem vou desistir da minha personalidade. Se tens medo, nem prossiga. As respostas virão do impasse e da encruzilhada. Aceito escutá-las. Eu quero afeto. Mas, olha, não ponha a mão no meu umbigo porque eu não gosto.

agosto/2012

A VIVA E O MORTO

Apaixonou-se por um homem que ela acreditava estar vivo,
mas que na verdade havia morrido há anos.
A pobre insistia na relação abismal.
O falecido não correspondia.
Não tinha como.
Morto não tem forward, só rewind.
As flores que ele entregava,
mal sabia a moça,
vinham direto do cemitério das lembranças dele.
Eram os crisântemos depositados na lápide.
A viva era enganada, deixava-se enganar,
queria passar o dias enganada.
Preferia a relação zumbística a dizer adeus,
não queria despencar mais uma vez.
Para o defunto, tudo bem,
ele não tinha nada a perder.
Já estava morto mesmo...

agosto/2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

QUERO SER PASSARINHO

Os passarinhos é que têm vida.
São livres, não batem cartão de ponto,
não vão ao supermercado,
não ficam gripados,
não sangram uma vez por mês.
Vêem a humanidade do alto.
São capazes de pronunciar vôos rasantes,
desviando até mesmo das gotas de chuva.
Os passarinhos são generosos.
Suas casas estão suspensas
mas nem por isso pagam condomínio.
No máximo, dividem o galho com outra família.
Tudo em harmonia. Tudo em paz.
Os passarinhos é que têm sorte.
Nascem com as perninhas tortas para trás
e não reclamam.
É justamente esse pequeno defeito
que mantém-nos em pé, até no sono.
Vai você, sujeito simples,
tentar cochilar encostado em árvore...
Os passarinhos é que sabem aproveitar o dia.
Acordam para cantar.
Passam a quarta-feira a procura de minhocas,
alimento saudável e digno, que ara a terra.
Banham-se ao sol matinal,
em qualquer poça d'água.
Carro passando, vai e vem de gente,
nada incomoda seu mergulho de beleza extrema.
Inundam-se com a pouca alegria
que lhe é destinada.
Cantam. Alimentam-se. Cochilam. Voam. Observam. Vivem.
É por isso que eu digo:
os passarinhos é que são felizes.

Hoje, observando um deles a banhar-se próximo ao meu trabalho, agosto/2012

LEVE

Ela não tem pressa pra nada.
Movimenta os cílios devagar.
Pisca e é como se estivesse em transe.
Até o coração bate lento,
porém forte. Parece, vai sair pela boca.
Foi assim, aconteceu de repente.
Um dia, sentiu a cor do amor a invadir.
E as possibilidades de felicidade,
todas elas,
existem agora.
Flutua ao caminhar.
Ela é uma pluma, uma bolha de sabão,
lenço de papel, mini-clip,
retalho de seda, isopor, uma pulga,
um pelo de gato boiando no ar.
É como se toda humanidade fizesse sentido.
Sente a alma inundada,
uma enchente de bons sentimentos.
Felizes, verdadeiros, serenos.

agosto/2012

terça-feira, 31 de julho de 2012

BANHO DE RAINHA

Entrou no chuveiro decidida, como alguém que invade o reino alheio
com a certeza de que carrega mais homens no exército.
A fumacinha que vaporiza o ar é gelo seco,
indicando o início do espetáculo.
Com as mãos em cuia, faz sua lagoa,
banha o rosto no seu próprio rio.
As mãos em concha repousam sobre os peitos.
Aos poucos, permite que o manto d'água transparente
passeie sobre eles e o corpo inteiro,
escorregando e arrastando tudo,
como ribanceiras.
Agora, a cascata despeja seu brilho sobre a cabeça.
Os dedos, em luva de espuma,
fazem a coroa: cheiro de morango.
Imperializa-se a ela mesma, sozinha.
É sua própria Rainha.
Vê a água branca indo embora
e com ela, seus medos. Adeus.
O resto é espuma, é spam.
No vidro embaçado escreve seu próprio nome, o dele,
escreve um desejo.
Isso é que eu chamo de um banho de ilusão.

julho/2012

VALIOSOS CHATOS

Dê graças a Deus pelos chatos.
O que seria do bacana
não fosse o mala se revelar?

jullho/2012

SINCERO

Era sério e fechado.
Só a procurava
porque a amava muito.
Homem assim
não bajula.

julho/2012

CARREIRA SOLO

Elaborando um repertório
cheio de músicas pré escolhidas,
percebo que meu roteiro saiu do programa.
Na verdade,
o que eu pretendia falar mesmo
ficou esquecido junto a outros discos
no fundo da prateleira.
Sobraram
algumas amenidades,
frases soltas de jazz.
O meu problema:
quanto te vejo
e quanto tu me olhas,
perco a coragem de ser alguém
e sou apenas eu mesma:
sem violão, sem banda,
cantora solo,
sólo me.

julho/2012

O OUTRO LADO

Pimentorium
in anus outrem
refrescus est.

Só uma bobagem (hehe), julho/2012

O VALOR CORRETO DAS COISAS QUE EU ENCONTRO POR AÍ E NÃO CONSIGO MENSURAR COM INTELIGÊNCIA

Só dê valor a quem vale a pena.
O resto, deixa passar.

julho/2012

segunda-feira, 30 de julho de 2012

CAFAJESTES DE PRIMEIRA

Os cafajestes não têm sexo, são uma classe andrógina.
São homens e são mulheres.
Têm atitudes singulares,
independentemente da classe social,
ocupação profissional,
qualidade intelectual.
Os(As) reconhecemos pelas qualidades...
as qualidades que os(as) tornam assim,
cafajestes.
Um(a) verdadeiro(a) cafajeste não diz sua opinião
só pra ver o outro se matar
tentando agradá-lo(a).
Faz propaganda enganosa,
corpo mole,
não diz que gosta e nem que odeia.
É sempre meio-termo.
Não se compromete, não se deixa envolver.
É incapaz de amar de verdade.
Não carrega uma pasta,
e sim uma merendeira.
O que está ao lado do(a) cafajeste
não reconhece-o(a) de bate-pronto;
até demora pra entender o que acontece.
Na verdade, quando o(a) encontra,
confunde-o(a) com o amor de sua vida.
O(A) companheiro(a) do(a) cafajeste
é chamado(a) por aí de pessoa negativa:
porque torce pelo pior para não sofrer depois.
O(A) cafajeste aparece em seu mundo
mas nunca mostra o dele(a).
E o suspense do(a) cafajeste é sempre abandonar a pessoa.

julho/2012

domingo, 29 de julho de 2012

TRIBUNAL DOS FÃS

A sujeita deslizou. Embora namore um dos jovens mais desejados no mundo - e ele nem é tão lindo assim - trocou-o por outro. Mas nem foi uma história arrebatadora. Deve ter sido um caso à toa, "coisa de artista" como justificam alguns. A traição acometeu um dos casais mais famosos do planeta. Uma coisa é descobrir uma traição. Outra é acordar e o mundo inteiro saber da escorregadela ao mesmo tempo que você. Pois não é que a TV montou um tribunal para julgar a pecadora?

De um lado, os que advogavam em favor do traído.
Do outro, os que endeusavam a adúltera.

As fãs enlouquecidas não entendiam como ela poderia tê-lo trocado por outro. Irritadiças criticavam os "invejosos" que dizem ser este, na verdade, o papel da vida dele... de namorado traído. Não, não deixaram espaço para dúvidas do tipo: ele é grosseiro, não abre a porta do carro pra ela, só vive de mal humor, se acha o máximo. Não importa se ele é um bom ou péssimo ser humano, não tem jeito, ele é a vítima. Ela teria de aguentá-lo porque, afinal, ele é imortal.

As que admiram a atriz errônea defendem que as fotos foram montadas, que não condizem com a realidade. O tênis teria mudado de cor, o cabelo também. Em nenhum momento argumentaram que ela é humana, que não vive o romance da ficção na vida real. Não ponderaram que ela poderia estar cansada do namorado lindo, porém chato; educado, porém vaidoso. Que, assim como qualquer mulher, tem um coração que pertence a alguém e  que, quem sabe, se encantou por outra alma, talvez mais experiente... sem, contudo deixar de amar seu companheiro. Não, ela não poderia ter errado. Ela é a própria personagem que jurou amor eterno.

O fato é que a jovem atriz de 20 e poucos anos apareceu em folhetins da China ao Brasil, do Canadá ao Polo Sul, dando amassos no parque, beijos no carro, mãos envoltas no pescoço. O partner era o diretor do filme, um homem bonito e 20 anos mais velho do que ela. E daí se é verdade ou não? Será que nem isso ela pode se dar ao luxo, já que não tem liberdade para praticamente nada nessa vida? Deixem a guria amar, trair, acertar, odiar!

O veredito final: a moça errou, e feio. "Mas que não se repita", avisaram. Como se a vida do casal pertencesse a todos os fãs do planeta terra. Um relacionamento vivido por quem não tem seu próprio pra cuidar ou descuidar. É, Bela... ainda bem. Pior se a jovem atriz tivesse sido condenada ao ostracismo...

julho/2012

A VERDADEIRA LIBERDADE

Estavam no metrô.
Ele olhou-a bem nos olhos.
Nesse momento,
a essência jorrou.
Sua íris a capturou na retina.
Encarcerada ela está.
Aprisionadamente
amada e feliz.
Livre para ser dele.

julho/2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012

INDECENTEMENTE POÉTICA


Nem sei se quero pensar em mais nada.
Fico apenas imaginando
quando você vai passar naquela esquina.
Te espero todos os dias no mesmo lugar.
Quem sabe, quando eu finalmente te encontrar,
arrasto-te para um beco qualquer.
E ali mesmo, me apresento.
Beijo-te indecentemente na testa.
Me insinuo recitando poemas do Pessoa.
Danço como se dançasse
pra ninguém ou só pra ti.
Me multiplico em mil.
Caprichos de gueixa.
Preciso confessar:
tenho pensamentos sinuosos a teu respeito.
Que bom. Fantasia não tem pedágio.

julho/2012

sábado, 21 de julho de 2012

MAGALI É MEU DIVÃ

Quando estou na dúvida ou precisando desabafar, é ela quem me ouve. Olhos nos olhos, conto tudo nos mínimos detalhes, sem ser preciso me apressar para chegar logo ao fim da história. Magali é atenciosa. Ela me escuta. Escuta tudo. Não palpita; não pondera dizendo que estou fazendo tudo errado; não me recrimina. É uma realidade off tube.  "Você sabe, Magali, o que me aconteceu hoje...", "Nossa, Magali, preciso te contar essa...", ".. e de tudo que eu escutei, Magali, só posso tirar a seguinte conclusão:...". Substituo Freud pela sabedoria silenciosa de Magali. Porque nossa simbiose é perfeita.

Inspirada em algumas ideias de Silvio Luis (creiam!), julho/2012

A CULPA

Não importa o quanto você já viveu,
sempre é tempo de errar para se arrepender depois.
Sabe aquelas coisas que pensamos:
Meu Deus, como eu pude??
O tempo passa
e a gente não se perdoa por certas situações
e fica se martirizando.
Parece que emburrece,
não se livra do problema antes dele chegar.
E aí termina com a fatídica pergunta:
Meu Deus, como eu pude??
Minha sorte é que não sou famosa,
não saio em capa de revista,
nem na sessão de fofocas do jornal.
Ainda bem.
Ninguém vai saber e a culpa vai passar.
Aquele petit gateu... oh céus!

é verdade que toda mulher precisa emagrecer 2 quilos?,  julho/2012

COMPUNGIDA

Se arrependimento
matasse,
eu já tava
Tutankamon.

julho/2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A ANTA

AAAAAAH!
Ahn...
Hã?
Ah!
HÁ.
Aaaaah!
Ahn?
Hahahaha!
Ahá!!!
HA HA HA.
Há!!
Ahnnnnnnn...

Mas ele era tão topeira
que nunca entendia
o que ela queria mesmo dizer.

julho/2012

SENHORES E ESCRAVOS

Essas palavras que me surpreendem,
sempre me absorvem.
Deixando-me em lugar de honra e,
às vezes, de desonra.
Me expõem, eu não ligo.
Juro que nem vou me preocupar com isso.
Elas praticamente mandam em mim.
Me embaralho nesses pensamentos
que pestanejam
e sobejam qualidades e desejos.
Perigosas mesmo
são aquelas  palavras que saem da boca.
Libertam ou aprisionam.
Somos senhores das palavras não ditas.
E escravos das palavras ditas.

julho/2012

O DESTINATÁRIO

Muita pretensão sua
ter certeza de que os dinossauros
foram criados pra ti.
Ou então que és o centro do mundo.
E, ainda, que essas são as suas memórias.
Ninguém está nesses pensamentos,
nem você, tranquilize-se.
O que escrevo pode ser pra ninguém
ou pra alguém.
São apenas amarras de um vínculo exigente,
somando uma dúvida em cima da outra.
Só assim posso continuar a viver.
Porque, in fact,
as pessoas se apaixonam é na conversa.
Conversa é muito sexy, diz uma amiga minha.
É, Mônica...
tem que ter muita coragem mesmo pra fugir...

julho/2012

BEICINHO

Eu não gosto de ser contrariada. Mentiroso aquele que diz suportar numa boa o desagravo. No fundo, ninguém aceita. Na verdade, toleramos para continuar vivendo. Pior ainda quando somos combalidos por aquilo que foge do nosso controle, que depende apenas de uma vontade sub-humana, ou de outro alguém ou de sei lá o quê. Quando isso acontece, fico triste como criança que é vetada de ir ao parque de diversões. Dá vontade de pedir: - Ei! Você pode me vomitar, por favor? Dúvidas, tenho muitas dúvidas. Diz o comercial de TV que são as perguntas que movem o mundo e não as respostas... Hoje, minha mente é blindada por loucos raios de dúvidas. Será que é por isso, então, que continuo caminhando? Ou é esse misto de dúvida e desejo que continua legislando sobre mim, me colocando numa condição de amor e inveja, desse mundo que quase chega a estourar as veias do meu coração?

julho/2012

quinta-feira, 19 de julho de 2012

ÓBVIO

Eu tava pensando ensolaradamente
se esse dia claro não foi criado 
só pra eu caminhar na praia com você.
Tava pensando mesmo
se não podia
discutir sobre arquitetura contigo
já que nem temos tanto bom gosto assim.
Eu tava pensando na verdade
se aquele doce que eu vi na vitrine
não seria ótimo como nossa sobremesa.
Tava pensando apenas
se você não queria ler pra mim
aquele meu livro preferido.
Eu tava pensando
cá com meus botões
se a gente não podia trocar de agenda
só pra um decidir o melhor compromisso
para o outro.
Tava só pensando
de repente
se a gente algum dia
poderia se encontrar.

julho/2012

MARINA COMEÇA COM MA

Há alguns dias acordo de madrugada e o sono não prossegue. Novidade pra mim. Logo eu que durmo feito aquelas esculturas moais da Ilha de Páscoa. O pesadelo de acordar para viver torna-se ainda pior quando tenho que madrugar. Meu metabolismo é sonâmbulo. Levanto minha alma da cama, no entanto, continuo a dormir. A caminho do trabalho, pestanejando e pensando na vida, admirando o sol frio de inverno, passa a menina e a mãe.
- Marina começa com Ma! - e prossegue, saltitando entre as folhas secas, pisando na terra.
E eu ali, preocupada com a reunião, com as contas pra pagar, com o frio no Sul. Que vergonha eu senti. É tudo tão simples... Marina começa com Ma.

julho/2012

FREVO NA MENTE

Sou muito esperta.
Jogo minhas teias de areia
para capturar.
Explico minhas ideias
com franjas,
só pra não ficar dúvidas.
Sou espirituosa.
Me divirto com pouco,
como pinto no carrapicho.
Sempre chego sozinha
porque uma andorinha só
não faz questão.
Tenho um frevo na mente,
por isso estou aqui,
descontruindo os ditados.
Só pra variar e contrariar.

julho/2012
teias de areia = teias de aranha
explicar com franjas = explicar com laranjas
pinto no carrapicho = pinto no lixo

CIDADÃ DE ONDE?

Estou entre a Serra e o Mar.
Entre a Montanha e a Água.
Entre a Paulista e o Boqueirão.
Sem sotaque definido,
sem uma indumentária
daquelas que identificam a pessoa imediatamente.
Formada por recortes
de vários sujeitos e predicados
sigo-me como uma estrada
de uma única reta,
uma única melodia.
Se há curvas na subida ou na descida,
são apenas para permitir
que meus pensamentos circulem
e se movimentem.
Eu sei,
minha perseguição é inglória.

julho/2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

SARAMAGUEANDO

Sonhei que viajava com você no galeão, que navegava pelo mar sem medo de tubarão, para o Oriente sempre em frente íamos então, longe da nossa casa longe do nosso sertão, a sós a bordo pelos mares, destino Japão. Um baú com samba caipirinha com quentão pra trocarmos com arroz karatê meditação, pra trocarmos com ninja tatame com precisão. Sonhei que viajava com você em um balão que flutuava muito acima de um vulcão em erupção, para o Oriente, vento quente pés longe do chão, voava sem ter asas como a imaginação, nós dois bem alto sãos e salvos rumo ao Japão. Numa sacola mel laranja manjericão, pra trocarmos com saquê com shoyu dedicação, pra trocarmos com judô ofurô com decisão. Sonhei que viajava com você num avião que deslocava-se quebrando a barreira do som, para o Oriente, velozmente era a direção, batia suas asas a nave total perfeição, pra ser exato voávamos indo para o Japão. Na mala cuia carne-seca farinha e feijão, pra trocarmos com sushi com banchá com devoção, pra trocarmos com hay kai samurai com vídeo som.

Cássia canta lindamente, julho/2012

DOIS CORAÇÕES

- Somos dois corações separados pela razão.
- Talvez o meu, o seu não.
- Se és que tem coração...
- Se é que estou incluído em algum lugar.
- Olha, nem venhas me dizer que é precipício, daqueles que só de olhar pra baixo dá frio na barriga.
- Cansei de viver pendurado.
- Te julgo, te julgo mesmo.
- Tudo bem, te dou esse direito.

Da série "Diálogos delirantes", julho/2012

MINHA PEQUENA REVOLTA

Se tem algo que me tira do sério é o fingimento descarado. Quem aparenta ser o que não é. Quem finge ser samaritano sendo, contudo, um fariseu. E como é fácil para o indivíduo manter a capa de boa-gente, como é fácil. Não dá nem tremedeira na hora de mentir. E o pior: todo mundo acredita. Me arrependo mortalmente de defender algumas pessoas e descobrir, a posteriori, que elas não mereciam meu empenho em sua defesa. Nestes momentos, sinto-me imbuída de uma inocência quase ignorante. Me faz mal. Sempre soube que minha intuição funcionava bem, pra ela não tem nuvem que impeça seu pleno funcionamento, suas antenas estão sempre em alerta. Bobagem minha mesmo é insistir em não acreditar no que meus olhos não vêem. Porque meu coração sente, avisa, grita, esperneia. E eu mando-o calar a boca e recolher-se à sua insignificância. Há algum tempo, os mais velhos me dizem que em toda a nossa vida, encontraremos pouquíssimas pessoas em quem podemos confiar plenamente. Sempre duvidei dessa tese, considerava exagero ou coisa de gente amargurada. Hoje percebo o quanto esse conselho foi valioso e eu, porém, joguei-o no lixo. Sobrevivo agora de minhas más escolhas. De ter eleito os confidentes errados, de ter confiado de maneira despreparada e até presunçosa. Continuo, então, a labuta sozinha, sozinha... Ah, mas se eu tivesse coragem falava um baita palavrão. Ou saía contando pra todo mundo o que aconteceu, mesmo que ninguém acreditasse porque essa pessoa "é tão legal...". É. É a vida.

Revoltinha..., julho/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

DELICADEZA

Para bom entendedor
meia patada
basta.

julho/2012

AS TARTARUGAS

Hoje eu acordei pensando em tartarugas e na autosuficiência delas para com todas as coisas. Lentamente, seguem sua vida, sem se importar com o valor do dólar ou se vai chover. Não escolhem roupas, não precisam levar guarda-chuva, não se importam se ninguém ligou no celular. Abençoadas tartarugas que vivem seus dias na mais absoluta complacência e felicidade. É um bicho diurno, que sabe andar em grupo. Patas curtas e fortes, dura 80, 100 anos, as fêmeas são maiores que os machos. Convivem até com jacarés. As tartarugas têm um casco tão duro que resiste até mesmo aos dentes do alligator. Quando na natureza, se alimentam de folhas, frutas e bebem muita, muita água. Caminham devagar, apreciando a paisagem e analisanto todas as coisas. Pensam, pensam, pensam, e tomam sempre a melhor decisão por si mesmas. Sem precisar pedir conselhos para ninguém. Completamente realizadas.

julho/2012

PRÁTICA

Não se ocupe com tudo.
Mantenha-se
ocupada com o que interessa.
A sua vida.
E só você pode saber
na verdade
onde ela habita.

Cansada de perder tempo, julho/2012

ESPERANTO

- Queria ver você hoje.
- Tenho mil coisas pra fazer do trabalho.
- Queria muito bater papo contigo, olhar pra você, ver como estás.
- Minha arrumadeira não veio esta semana, a casa tá uma bagunça.
- Vamos tomar alguma coisa? Ganhei um vinho branco que é uma delícia.
- E o pessoal do condomínio marcou uma reunião às 8 da noite. É incrível isso, eu...
- Você podia fazer aquela quiche de legumes que eu adoro, de sobremesa...
- ... já falei mil vezes que esse tipo de reunião tem que ser no fim de semana. Acho que ninguém por aqui...
- ... podíamos ver aquele filme que estamos enrolando pra assistir, lembra que o ...
- ... e o pior, ninguém tem coragem de reclamar sobre o barulho que o cachorro faz...
- ... prometo que desta vez eu não durmo no meio do filme, tá bom. De repente...
- Você tá falando comigo?
- Sim, estou.
- Que língua é essa que eu não entendo? Tá falando esperanto?
- É... acho que sim.
- Bom, vou nessa.
- Volis vidi ŝin kaj brakumi ŝin.
- Hã? Que é isso?
- Esperanto.
E desligou o telefone.

Da série "Diálogos delirantes", julho/2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

ESSE É O MEU CLUBE

Caminho a passos largos; às vezes, curtos.
Tem dias que eu foco no meu destino;
em outros, deixo-me olhar para os lados.
Sigo escutando o barulho da rua;
mas de repente prefiro ouvir Cássia no mp3.
Posso ir de tênis ou de salto 15.
De regata branca ou cachecol e luva.
Calma ou nervosa.
Chorando ou sorrindo.
Prossigo.
Vou adiante.
Persisto.
Permaneço.
Perduro.
Mas continuo andando.

julho/2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

SPEAK LOW

Quando vieres falar de amor pra mim,
fale baixo
e devagar.
Prometo fechar meus olhos
pra te escutar melhor.
Assim,
congelamos tempo e espaço.
Ficamos ali,
lambendo nossos sentimentos,
surdos com nosso bem-querer,
mudos pra todo o planeta.
Uma roda gigante
parada lá no alto.
Só eu e você.

me inspirei em uma canção que Marisa Monte gravou (Speak Low),  julho/2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

ELA...

Hoje faz um mês que ela apareceu, ´
modificando tudo, pra sempre.
Sem fazer força,
sendo ela mesma.
Apenas vivendo seu dia a dia.
Despertando o que há de melhor em nós.
É um milagre! - diriam os religiosos.
É o cosmos! - argumentariam os místicos.
É o avanço da medicina! - afirmariam os cientistas.
É apenas mais um. - aliviriam os descrentes.
É ela! É ela! - dizemo-nos.
Há 30 dias bebemos desse sorriso.

Para Manuela,  12/julho/2012

CLASSIFICADOS

Aluga-se
Uma alma com muitos defeitos irreparáveis.
Cheia de receios, cansada de buscar o foco,
que ninguém aparenta gostar.
Uma alma para investimento a longo prazo.
Que oferece bons resultados, às vezes até acima do mercado.

Troca-se
Uma vida sem emoções por alguma outra
cheia de bons acontecimentos full time.
Que busca lucidez.
Uma vida que ninguém aparenta querer,
mas que deseja ver flores na neve.

Vende-se
Um coração cansado.
Cansado de repetições que decepcionam quase sempre.
Combalido pelo tremendo esforço feito por muitas léguas.
Que ninguém aparenta amar.
Um coração que pensa, ainda pode ser feliz.

julho/2012

quarta-feira, 11 de julho de 2012

PARA ROMA COM AMOR


Gosto de viver. Mas, sinceramente, a vida parece nos sufocar de vez em quando.
Ontem fui ao cinema e vi um filme do Woody Allen, uma linda película. Bom humor e inteligência ao retratar as relações humanas, a lealdade, os sonhos esquecidos e a importância do carpe diem. Assuntos básicos, não é? Pois eu te digo que não. Somente quem tem coragem pensa nisso. E quem pensa, sofre. Não tem fim. Saímos dali pra tomar um café. Não, eu não gosto de capuccino. Tá, eu sei que é chique e tudo mais. Mas eu decidi que estou cheia de opiniões. Vou só dizer a verdade pra ver no que dá. Preferi chocolate com nutella, beeem doce, beeem escamoso, beeeeeeem cheio de chocolate. Vi tantas fisionomias diferentes, tanta gente bonita de olho claro e eu naquele frio de doer os ossos, toda cheia de roupa, cachecol, bota, meia. Olhei em volta, vi todo mundo feliz, com uma cara meio blazé, tipo "tô sempre aqui na Paulista". Ah! E eu com meus pés gelados, esses meus olhos jaboticabais, tão incompetente para mudar os fatos, meu destino ou pra sair gastando tudo com um american express. Atravessei a avenida tão bonita, iluminada, aquele vento cortando meu rosto e entrando por baixo do casaco. Pegamos o carro, atravessamos a cidade vazia, solitária. Tudo bem, eu sei, não é nenhuma tragédia dantesca porque eu nem sou tão malandra assim.

julho/2012